Web Summit Rio 2026 junho 10, 2026
Quem manda na IA dentro da sua empresa?
No Web Summit Rio 2026, um debate sobre agentes de IA revelou uma mudança silenciosa: a tecnologia deixou de ser um assunto exclusivo da área de TI.
Quando falamos sobre inteligência artificial nas empresas, boa parte das discussões ainda gira em torno das mesmas perguntas: a IA vai substituir empregos? Como aumentar a produtividade? Quais ferramentas devem ser adotadas?
Mas uma das reflexões mais interessantes do AI Summit, durante o Web Summit 2026, passou longe dessas questões.
O debate entre Cleber Morais, diretor-geral da AWS Brasil, e o jornalista Alvaro Leme, trouxe à tona uma mudança menos visível, mas potencialmente mais transformadora: a inteligência artificial está deixando de ser um tema restrito às áreas de tecnologia.
E isso muda completamente a forma como as empresas inovam.
Durante anos, a inovação passou pela TI
Por muito tempo, a adoção de novas tecnologias seguiu um caminho relativamente previsível dentro das organizações.
Uma área de negócio identificava uma necessidade. A demanda era encaminhada para tecnologia. O projeto entrava na fila. Passava por avaliações técnicas, orçamentárias e operacionais. Só então começava a ser desenvolvido.
Esse modelo funcionou durante décadas porque a tecnologia exigia conhecimentos altamente especializados. Desenvolver uma solução digital, automatizar um processo ou criar uma nova ferramenta dependia quase sempre de equipes técnicas dedicadas.
A inteligência artificial começa a alterar essa lógica.
Pela primeira vez, profissionais de áreas como marketing, vendas, jurídico, recursos humanos e operações conseguem criar soluções relevantes sem necessariamente depender de um longo ciclo de desenvolvimento.
A barreira de entrada diminuiu. E isso está distribuindo a capacidade de inovar dentro das empresas.
O surgimento dos agentes de IA acelera esse movimento
Um dos temas centrais da conversa foi o avanço dos chamados agentes de IA: sistemas capazes de executar tarefas, consultar bases de dados, seguir fluxos de trabalho e apoiar decisões de forma mais autônoma.
Na prática, eles estão tornando a tecnologia mais acessível para quem entende do problema, mesmo que não seja especialista em programação.
Durante o painel, Cleber citou exemplos de profissionais da área jurídica desenvolvendo agentes para apoiar análises de processos e interpretação de legislações específicas.
O exemplo chama atenção porque ilustra uma mudança importante.
Quem melhor entende as dores de um departamento jurídico costuma ser alguém que trabalha diariamente com questões jurídicas. Da mesma forma, quem conhece os desafios de uma operação comercial geralmente está na área de vendas. Quem entende as necessidades de comunicação está no marketing.
A inteligência artificial está aproximando a construção da solução de quem convive com o problema.
O debate sobre IA talvez não seja mais tecnológico
Nos últimos anos, grande parte das discussões corporativas sobre inteligência artificial esteve concentrada em infraestrutura, segurança, arquitetura e integração de sistemas.
Esses temas continuam relevantes. Mas o painel sugeriu que uma nova pergunta começa a ganhar importância: quem deve liderar a transformação impulsionada pela IA?
Uma pesquisa mencionada durante a conversa apontou que decisões relacionadas à inteligência artificial estão deixando de ser exclusividade de CIOs, CTOs e líderes de tecnologia. Cada vez mais, executivos de negócios participam diretamente dessas decisões.
Isso faz sentido.
Afinal, o impacto da IA não acontece apenas nos sistemas. Ele acontece nos processos, nas rotinas, no relacionamento com clientes, na produtividade das equipes e na criação de novos produtos.
A tecnologia continua sendo fundamental. Mas o valor está migrando para a capacidade de aplicá-la aos desafios do negócio.
O risco não está apenas na tecnologia
Outro ponto abordado durante o painel foi a preocupação de muitos profissionais com o impacto da IA no mercado de trabalho.
A resposta de Cleber foi interessante porque se afastou das narrativas mais alarmistas. Segundo ele, toda grande transformação tecnológica gera rupturas e exige adaptação. Mas, até o momento, os dados de empregabilidade não indicam um cenário de substituição em massa.
O que está acontecendo é uma reorganização das competências valorizadas pelo mercado. Nesse contexto, o risco não parece estar apenas na existência da tecnologia. Está na capacidade de aprender a trabalhar com ela.
Assim como a internet redefiniu profissões, a inteligência artificial tende a alterar a forma como diversas atividades são executadas. Algumas tarefas serão automatizadas. Outras ganharão eficiência. Novas funções surgirão.
O desafio continua sendo adaptação.
O próximo desafio das empresas será a orquestração
Se antes a inovação dependia quase exclusivamente da área de tecnologia, agora ela pode surgir em qualquer departamento.
À primeira vista, isso parece uma excelente notícia. E realmente é. Mas também cria um novo desafio.
Como coordenar dezenas de iniciativas de IA acontecendo simultaneamente dentro da mesma organização?
Como garantir que diferentes áreas utilizem dados corretos?
Como evitar redundâncias?
Como medir resultados?
Como estabelecer governança?
À medida que a inteligência artificial se espalha pelas empresas, a discussão deixa de ser apenas sobre adoção e passa a incluir coordenação.
Talvez a próxima grande vantagem competitiva não esteja em quem possui mais ferramentas. Mas em quem consegue conectá-las de forma mais inteligente.
