GS1 Brasil outubro 28, 2026
Agro em Código 2026: como dados e rastreabilidade estão transformando o agronegócio
Da identificação de produtos ao monitoramento das condições de transporte, soluções digitais vêm ampliando a capacidade das empresas de acompanhar suas cadeias produtivas e oferecer mais transparência ao consumidor. Essas transformações estiveram no centro das discussões do Agro em Código 2026, realizado em 27 de outubro, no Cubo Itaú, em São Paulo (SP). Promovido pela GS1 Brasil, com participação da Embrapa Agricultura Digital, o evento reuniu especialistas e representantes do setor para debater o papel dos dados e da rastreabilidade no futuro do agronegócio.
A programação reuniu representantes de empresas, instituições de pesquisa e especialistas para discutir os avanços da rastreabilidade, seus impactos na sustentabilidade e o papel dos dados na construção de relações de confiança ao longo da cadeia produtiva.
Entre os principais assuntos abordados, destacaram-se as tecnologias que conectam o ambiente físico ao digital, as aplicações da rastreabilidade em setores como o de cannabis medicinal e a importância de transformar informações sobre a origem e a trajetória dos produtos em valor para empresas e consumidores.
Cannabis medicinal: rastreabilidade da origem ao produto final
A palestra de abertura, “Rastreabilidade na Cadeia da Cannabis Medicinal: Conectando Experiências da Argentina e do Brasil”, reuniu Mario Abitbol, da GS1 Argentina, Ariel Mazzoni, do INTA, e Beatriz Emygdio, da Embrapa Clima Temperado, para discutir os desafios e as oportunidades de desenvolvimento dessa cadeia produtiva.
Durante a apresentação, foram abordadas as diferentes aplicações da Cannabis sativa, que vão desde o uso medicinal até aplicações industriais, além da importância de estabelecer processos de produção seguros e controlados.
Um dos destaques foi o papel da rastreabilidade no acompanhamento de todas as etapas da produção, desde a origem do material vegetal e a identificação dos lotes até o cultivo, processamento, movimentação e destinação final.
No contexto brasileiro, a Embrapa apresentou iniciativas de pesquisa voltadas ao desenvolvimento de cultivares, práticas de manejo e processos de pós-colheita, além de aspectos regulatórios relacionados ao cultivo da planta.
A discussão evidenciou que, especialmente em cadeias produtivas com exigências rigorosas de controle, a rastreabilidade é fundamental para garantir a identificação dos materiais, a qualidade dos produtos e a segurança dos processos.
Do físico ao digital: tecnologias ampliam as possibilidades de rastreabilidade
Durante o talk “Rastreabilidade Figital: o novo eixo estratégico do agro e da indústria de alimentos”, Manoel Cesar Muller, da Autent AI, apresentou tecnologias capazes de conectar produtos físicos a informações digitais, ampliando as possibilidades de identificação, autenticação e monitoramento.
Uma das soluções abordadas foi o QR Code 2D, alternativa de baixo custo que, além de permitir o acesso a informações sobre o produto, pode funcionar como um canal de comunicação entre marcas e consumidores.
Outras tecnologias também demonstram como a rastreabilidade pode ir além da identificação. O NFC (Near Field Communication), por exemplo, possibilita a autenticação de produtos, incluindo bebidas alcoólicas. Sua aplicação ganha relevância diante de episódios de falsificação e adulteração, como os casos de intoxicação por metanol registrados no Brasil em 2025, que reforçaram a necessidade de mecanismos capazes de verificar a procedência e a autenticidade das bebidas.
Já os sensores BLE (Bluetooth Low Energy) permitem monitorar condições ambientais durante o transporte, como temperatura, movimentação e paradas das cargas. No caso de produtos perecíveis, esse acompanhamento pode ajudar a identificar condições que influenciam o amadurecimento e a conservação dos alimentos, contribuindo para decisões mais eficientes na logística.
A apresentação também abordou os taggants, marcadores que podem ser incorporados aos próprios produtos para permitir sua identificação e autenticação. Esses elementos possuem aplicações forenses, podendo fornecer evidências técnicas em investigações e ações judiciais relacionadas à origem ou à autenticidade de materiais.
Em conjunto, essas tecnologias mostram como a digitalização pode ampliar o controle sobre a cadeia produtiva e gerar informações relevantes para diferentes etapas do negócio.
Rastreabilidade também é uma questão de confiança e sustentabilidade
A relação entre informação, sustentabilidade e comportamento de consumo foi um dos destaques do painel “Rastreabilidade, segurança e confiança: o papel da informação nas decisões de consumo”.
A discussão contou com representantes do Instituto Akatu, Mercado Livre, Nestlé, Abrasel e Dengo Chocolates, que abordaram a importância da transparência e da confiabilidade das informações disponibilizadas ao consumidor.
Durante o debate, Estevan Sartoreli, co-fundador da Dengo Chocolates, defendeu que não é possível falar de sustentabilidade sem falar de rastreabilidade. O executivo também observou que, no Brasil, questões relacionadas à sustentabilidade e à origem dos produtos ainda não são necessariamente determinantes na decisão de compra dos consumidores.
Cecilia Seravalli, da Nestlé, concordou com a avaliação e complementou a discussão ao apresentar iniciativas da companhia para tornar mais visível a relação entre os produtos e sua origem.
Um dos exemplos foi o trabalho desenvolvido com produtores de café por meio do Nescafé Plan. Embora a Nestlé adquira café de empresas intermediárias, o programa estabelece uma relação com os produtores, permitindo ampliar o conhecimento sobre a cadeia de fornecimento e incentivar práticas agrícolas mais sustentáveis.
A companhia também utiliza estratégias de comunicação para aproximar o consumidor dessa realidade, como a presença de imagens de agricultores nas embalagens de Nescafé. A iniciativa busca dar visibilidade às pessoas envolvidas na produção e mostrar a conexão entre o café consumido e sua origem.
Outro ponto importante foi levantado por Gabriel Pinheiro, da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), que destacou a importância da rastreabilidade para prevenir e responder a crises envolvendo a segurança dos produtos.
O representante mencionou os casos de bebidas alcoólicas adulteradas com metanol, registrados em 2025, como exemplo dos riscos associados à falta de informações confiáveis sobre a procedência dos produtos. Para estabelecimentos como bares e restaurantes, conhecer a origem das mercadorias e contar com mecanismos de verificação são medidas importantes para a segurança dos consumidores.
As contribuições reforçaram que a rastreabilidade não se limita ao acompanhamento técnico de um produto. Quando suas informações são traduzidas de forma clara, ela também pode contribuir para contar histórias, dar visibilidade aos produtores, fortalecer a confiança nas marcas e oferecer mais segurança ao consumidor.
O futuro do agro passa pela integração entre dados, inovação e mercado
A programação do Agro em Código 2026 também ampliou o debate para os desafios competitivos e regulatórios do agronegócio brasileiro.
O painel “Brasil, potência agrícola: por que ainda reagimos às regras globais em vez de antecipá-las?” trouxe a discussão sobre a necessidade de o setor acompanhar as transformações do mercado internacional e se preparar para novas exigências.
Já o painel “Avanços tecnológicos capazes de potencializar o uso da rastreabilidade no Agro” reuniu especialistas de organizações como Embrapa, Siemens, ICMBio, Ecotrace e ESALQ, reforçando a presença da inovação tecnológica na agenda do setor.
As discussões evidenciam que o avanço da rastreabilidade depende não apenas da adoção de novas ferramentas, mas também da capacidade de integrar informações, conectar diferentes agentes da cadeia e transformar dados em decisões estratégicas.
Para as empresas, esse movimento representa oportunidades de aprimorar processos, fortalecer relações comerciais e oferecer informações mais qualificadas ao mercado.
