Web Summit Rio 2026 junho 11, 2026
O impacto mais subestimado da IA não é escrever código. É eliminar gargalos.
Entre as muitas discussões sobre Inteligência Artificial que acompanhamos durante o Web Summit Rio 2026, uma chamou atenção por fugir de um tema que já se tornou quase obrigatório em qualquer evento de tecnologia: a substituição de profissionais pela IA.
Na palestra “How to remain competitive in the AI era of software engineering”, Alexey Milovidov, cofundador e CTO da ClickHouse, apresentou uma perspectiva diferente. Em vez de focar na geração automática de código ou em previsões sobre o futuro das profissões, ele trouxe exemplos práticos de como agentes de IA estão sendo utilizados para reduzir um dos maiores problemas enfrentados por empresas em crescimento: o atrito operacional.
A reflexão é especialmente interessante porque desloca a discussão para um terreno menos explorado. Afinal, talvez a maior contribuição da Inteligência Artificial não seja fazer o trabalho das pessoas, mas ajudar as pessoas a trabalhar melhor.
O trabalho invisível que ninguém contabiliza
Quando pensamos em desenvolvimento de software, normalmente imaginamos programadores escrevendo código, arquitetando sistemas e resolvendo problemas complexos.
Na prática, porém, boa parte do tempo é consumida por atividades que não aparecem em demonstrações de produto nem costumam ser celebradas em apresentações corporativas.
Investigar falhas em testes. Analisar logs. Descobrir se um alerta representa um problema real ou um falso positivo. Identificar qual equipe deve ser envolvida. Entender se uma falha está relacionada ao código ou à infraestrutura.
Em ambientes mais complexos, milhares de testes podem ser executados diariamente. Muitos falham por razões legítimas. Outros falham por circunstâncias externas. Separar o que realmente merece atenção daquilo que pode ser ignorado se torna um trabalho em si.
Foi justamente nesse contexto que Alexey apresentou alguns dos agentes utilizados pela ClickHouse.
Em vez de esperar que uma pessoa investigue cada incidente, esses sistemas analisam logs, verificam possíveis causas, identificam padrões e sugerem caminhos para correção. Em muitos casos, a triagem já acontece antes mesmo de alguém ser acionado.
Não se trata de substituir engenheiros. Trata-se de permitir que eles dediquem mais tempo a problemas que realmente exigem intervenção humana.
A comunicação pode ser um gargalo maior do que a tecnologia
Um dos exemplos mais interessantes da palestra não envolveu código, infraestrutura ou arquitetura de sistemas.
Envolveu uma dúvida.
Durante uma viagem de trem, Alexey percebeu que uma página da documentação do GitHub estava carregando lentamente. Ao investigar, encontrou uma quantidade significativa de JavaScript sendo processada e ficou curioso sobre as razões técnicas por trás daquele comportamento.
Há alguns anos, a solução provavelmente seria procurar alguém especializado em front-end, explicar o problema e esperar uma resposta.
Desta vez, ele perguntou a um agente de IA.
Em poucos minutos, recebeu uma explicação sobre conceitos específicos relacionados a React, renderização progressiva e outros elementos que influenciavam o carregamento da página.
O ponto central da história não é a resposta em si.
É o fato de que ninguém precisou ser interrompido para fornecê-la.
Empresas modernas funcionam através de conhecimento distribuído. Quase sempre existe alguém que sabe responder determinada pergunta. O problema é encontrar essa pessoa, ter acesso ao seu tempo e conseguir encaixar essa interação no fluxo de trabalho.
À medida que as organizações crescem, essa dinâmica se torna cada vez mais complexa.
É justamente nesse espaço que a IA começa a gerar valor.
Quando a IA deixa de ser apenas uma ferramenta
Outro aspecto curioso da apresentação foi a forma como Alexey descreveu a relação das equipes com esses agentes.
Alguns deles possuem contas próprias no GitHub, participam de processos internos, realizam análises e interagem com diferentes fluxos de trabalho. Em tom bem-humorado, ele comentou que alguns colegas já os enxergam quase como membros da equipe.
A observação arrancou risadas da plateia, mas revela uma mudança interessante.
Durante décadas, softwares foram sistemas passivos. Eles aguardavam comandos.
Os agentes atuais funcionam de outra maneira. Eles monitoram eventos, identificam problemas, executam tarefas, sugerem ações e participam continuamente das operações.
Isso não significa que sejam conscientes ou que devam ser tratados como pessoas.
Mas significa que estão ocupando um espaço que antes dependia exclusivamente da atuação humana.
Talvez por isso uma das recomendações mais curiosas da palestra tenha sido: seja educado com os agentes.
A fala foi claramente feita em tom descontraído, mas carrega uma reflexão relevante. Estamos entrando em uma fase na qual a interação com sistemas de IA se aproxima cada vez mais de uma conversa. E, como acontece em qualquer ambiente colaborativo, a qualidade da comunicação influencia a qualidade das respostas.
O futuro da competitividade pode estar na redução de atrito
Ao longo dos últimos anos, a narrativa dominante sobre Inteligência Artificial foi construída em torno da automação.
Automatizar tarefas.
Automatizar processos.
Automatizar trabalho.
Mas a palestra de Alexey sugere uma visão complementar.
Talvez a maior vantagem competitiva da IA não esteja apenas na execução de atividades. Talvez esteja na capacidade de reduzir obstáculos que impedem pessoas e equipes de avançar mais rápido.
Menos tempo esperando respostas.
Menos tempo investigando problemas recorrentes.
Menos tempo procurando especialistas.
Menos tempo lidando com tarefas operacionais de baixo valor agregado.
Quando observamos por essa perspectiva, a Inteligência Artificial deixa de ser apenas uma ferramenta de produtividade individual e passa a atuar como um mecanismo de aceleração organizacional.
O que a midiaria leva dessa discussão
Uma das razões pelas quais fazemos questão de acompanhar eventos como o Web Summit Rio é justamente essa: as discussões mais relevantes nem sempre são aquelas que recebem as manchetes mais chamativas.
Enquanto parte do mercado ainda debate se a IA vai ou não substituir profissionais, empresas de tecnologia já estão explorando outra questão: como utilizar agentes para reduzir gargalos, acelerar fluxos de trabalho e ampliar a circulação de conhecimento dentro das organizações.
Na midiaria, acreditamos que esse é um dos caminhos mais promissores para a adoção da Inteligência Artificial nos próximos anos.
Não porque a tecnologia substitua pessoas.
Mas porque ela pode liberar pessoas para fazer aquilo que continuam fazendo melhor do que qualquer sistema: interpretar contextos, tomar decisões, construir relacionamentos e resolver problemas complexos.
A verdadeira transformação talvez não esteja em trabalhar menos.
Mas em gastar menos energia com atritos que nunca deveriam ter consumido tanto tempo.
