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Web Summit Rio 2026 junho 11, 2026

IA não substitui pessoas. Ela revela potencial.

Kleber Pinto

Escrito por Kleber Pinto

Tempo de leitura 6 min

IA não substitui pessoas. Ela revela potencial.

Reflexões sobre a palestra de James Lo no Web Summit Rio 2026

 

Durante sua apresentação no Web Summit Rio 2026, James Lo, cofundador e CEO da empresa de talentos baseada em IA Ethos, apresentou uma provocação que merece atenção de líderes empresariais, profissionais de comunicação e gestores de inovação:

O potencial humano não está desaparecendo. Ele está sendo desperdiçado.

Segundo Lo, o modelo tradicional de formação e trabalho foi construído para encaixar pessoas em funções rígidas. Passamos décadas estudando para ocupar cargos específicos, seguimos carreiras estruturadas por hierarquias corporativas e somos avaliados por métricas que muitas vezes não refletem nossa real capacidade de gerar valor.

Nesse contexto, a inteligência artificial surge não como substituta, mas como uma tecnologia capaz de compreender indivíduos em profundidade.

A grande mudança está na capacidade de interpretar sinais antes invisíveis.

Em vez de analisar apenas um currículo, a IA consegue considerar vídeos, projetos realizados, artigos publicados, códigos desenvolvidos, interações profissionais, pesquisas e experiências acumuladas ao longo da vida.

O resultado é uma leitura mais rica das competências humanas.

A pergunta deixa de ser: “Qual é o cargo dessa pessoa?”
E passa a ser: “Qual é o potencial dessa pessoa?”

 

O fim da lógica do currículo como documento central

Um dos argumentos mais interessantes de James Lo foi a crítica ao modelo tradicional de recrutamento. Ele lembra que recrutadores analisam currículos por poucos segundos antes de tomar decisões iniciais. A consequência é um sistema que privilegia credenciais e títulos formais, muitas vezes ignorando habilidades reais.

A IA permite inverter essa lógica.

Por meio da análise multimodal de dados, torna-se possível compreender:

  • competências técnicas;
  • histórico de projetos;
  • capacidade de aprendizado;
  • evolução profissional;
  • potencial de crescimento;
  • características comportamentais.

Mais importante ainda: identificar talentos que ainda não atingiram seu máximo desempenho.

É o que Lo chama de latent potential — potencial latente.

Inteligência não é um número

Outro ponto central da apresentação foi a crítica à obsessão do mercado por benchmarks.

Modelos de IA são constantemente avaliados por testes padronizados, rankings e métricas de desempenho. Mas Lo questiona:
“a inteligência é realmente algo absoluto e mensurável?

Sua resposta é não.

Grande parte do valor humano reside justamente em capacidades difíceis de medir:

  • julgamento;
  • intuição;
  • criatividade;
  • liderança;
  • negociação;
  • empatia;
  • gestão de conflitos;
  • leitura de contexto;
  • construção de confiança.

São atributos que dificilmente cabem em uma planilha ou em um benchmark técnico.

E são exatamente esses atributos que diferenciam profissionais extraordinários de profissionais apenas eficientes.

O problema das empresas não é produtividade. É discernimento.

Durante décadas, a gestão corporativa foi construída em torno da eficiência. Hoje, com a IA generativa, eficiência tornou-se abundante.

Produzir textos, apresentações, análises, códigos ou imagens está cada vez mais rápido.

O diferencial competitivo migra para outro lugar.

A questão estratégica passa a ser:

  • O que deve ser feito?
  • Qual problema vale a pena resolver?
  • Que oportunidade merece investimento?
  • Quais riscos são aceitáveis?

Essas decisões continuam sendo humanas.

A IA acelera respostas.

Mas ainda depende de pessoas para formular as perguntas corretas.

A liderança continua sendo um trabalho humano

As pesquisas mais recentes das grandes consultorias reforçam exatamente o ponto defendido por James Lo.

A  McKinsey & Company⁠ identificou em seus estudos sobre IA generativa que as organizações com maior captura de valor são aquelas onde a liderança atua como patrocinadora ativa da transformação, combinando tecnologia, cultura e tomada de decisão estratégica.

Já a  PwC⁠ aponta que CEOs reconhecem que o sucesso da IA depende menos da tecnologia em si e mais da capacidade humana de adaptação, confiança e governança.

A  Deloitte⁠ destaca que as competências mais críticas para líderes na próxima década incluem:

  • pensamento sistêmico;
  • julgamento ético;
  • gestão da complexidade;
  • colaboração interdisciplinar;
  • inteligência emocional.

Da mesma forma, a  Boston Consulting Group (BCG)⁠ conclui que empresas mais maduras em IA investem simultaneamente em tecnologia e desenvolvimento humano, entendendo que algoritmos ampliam capacidades, mas não substituem responsabilidade executiva.

Em outras palavras: A tecnologia está se tornando uma commodity. O discernimento humano não.

Comunicação: a nova infraestrutura da liderança

Existe ainda uma dimensão pouco explorada quando falamos de IA: a comunicação.

Se a inteligência artificial passa a executar tarefas operacionais, líderes precisarão dedicar mais tempo àquilo que nenhuma máquina faz adequadamente:

  • inspirar pessoas;
  • construir visão;
  • criar significado;
  • mobilizar equipes;
  • gerar alinhamento.

Organizações não são apenas sistemas produtivos. São sistemas sociais. E sistemas sociais dependem de narrativas, cultura e confiança.

Por isso, comunicação deixa de ser um suporte da estratégia para se tornar parte da própria estratégia.

A liderança do futuro será cada vez mais uma liderança comunicadora.

O que as empresas precisam fazer agora

A principal lição da palestra de James Lo não é tecnológica. É humana.

Empresas que desejam prosperar na era da IA precisam abandonar a visão de que tecnologia serve apenas para reduzir custos. A oportunidade real está em ampliar capacidades. Isso significa:

1. Mapear potencial, não apenas competências atuais

Buscar talentos pelo que eles podem se tornar, e não apenas pelo que fizeram até agora.

2. Redefinir métricas de desempenho

Avaliar não apenas produtividade, mas capacidade de aprendizado, colaboração e geração de valor estratégico.

3. Investir em cultura de experimentação

A inovação nasce da combinação entre criatividade humana e capacidade computacional.

4. Desenvolver líderes preparados para decidir

Quanto mais automação existir, mais importante será a qualidade do julgamento humano.

5. Fortalecer comunicação e confiança

A transformação tecnológica só acontece quando as pessoas compreendem por que ela está acontecendo.

Uma conclusão para além da tecnologia

A mensagem final de James Lo é otimista e necessária. Vivemos um momento em que muitos acreditam que a inteligência artificial diminuirá a relevância das pessoas. Mas talvez estejamos diante do movimento oposto.

Quanto mais a tecnologia automatiza tarefas, mais evidente se torna aquilo que nos diferencia. Não é a execução. É a interpretação. Não é a informação. É o significado. Não é a inteligência computacional. É a capacidade humana de decidir o que realmente importa.

Para empresas, líderes e profissionais de comunicação, esse é o verdadeiro desafio da próxima década: usar a IA para ampliar o potencial humano, sem abrir mão daquilo que torna as organizações verdadeiramente humanas.

E é justamente nesse ponto que comunicação, estratégia e tecnologia deixam de ser áreas separadas para se tornarem uma única competência de liderança.

Crédito da foto: Web Summit Rio 2026