Web Summit Lisboa 2025 novembro 11, 2025
Quando a verdade é alvo: o papel do jornalismo em um mundo polarizado

O palco principal do Web Summit Lisboa 2025 trouxe um alerta urgente sobre o jornalismo em um mundo polarizado.
Em meio ao avanço da desinformação e à queda de confiança nas instituições, o publisher do The New York Times, A.G. Sulzberger, e a CEO da NPR, Katherine Maher, discutiram o futuro do jornalismo em tempos de ataque à verdade.
O painel Truth in the Age of Propaganda and Polarisation foi um dos momentos mais intensos do evento, levantando uma questão essencial: como a imprensa pode continuar independente quando a própria verdade se torna alvo político?
O papel do jornalismo em um mundo polarizado
Sulzberger abriu lembrando que o ataque à imprensa livre é, historicamente, o primeiro movimento de regimes autoritários. “É mais fácil fazer o que se quer quando ninguém está fazendo perguntas”, afirmou.
Ele explicou que hoje a repressão não ocorre mais por censura direta, mas por métodos mais sutis. Esses mecanismos envolvem deslegitimar jornalistas, rotular veículos como inimigos do povo, usar processos judiciais e órgãos regulatórios de forma seletiva e incentivar ecossistemas de mídia partidária.
Maher relatou como a NPR enfrenta pressões semelhantes nos Estados Unidos, desde cortes de verbas públicas até campanhas de descrédito nas redes sociais. “Perdemos mais de 575 milhões de dólares em financiamento federal. É uma estratégia que começa por abalar a confiança do público e termina por sufocar economicamente a independência editorial”, disse.
O cenário descrito pelos dois líderes não é hipotético. A desinformação se tornou uma ferramenta política e econômica que redefine a relação entre verdade e poder.
Por que isso é importante
Sulzberger foi claro ao dizer que enfraquecer a liberdade de imprensa não ameaça apenas os jornalistas, mas também o direito do público à informação. “Quando falamos em liberdade de imprensa, não estamos defendendo o nosso ofício, mas o direito das pessoas de saber o que seus governos estão fazendo”, destacou.
Ele lembrou que ataques domésticos à imprensa americana têm impacto global. Depois que o termo fake news foi popularizado, mais de cinquenta países aprovaram leis “anti-fake news”, muitas usadas para silenciar críticos e jornalistas.
Maher alertou para o risco de uma normalização da mentira, em que o ruído informativo substitui a investigação e a dúvida passa a ser usada como arma política. “A verdade, hoje, precisa ser defendida ativamente. E isso exige coragem institucional e ética editorial”, completou.
Além disso, os dois reforçaram que o jornalismo em um mundo polarizado só sobrevive quando reconecta o público com o valor social da informação.
O que podemos aprender com isso
Apesar do tom grave, Sulzberger e Maher demonstraram otimismo pragmático. A resposta ao autoritarismo está em continuar fazendo jornalismo com rigor, independência e transparência.
“A primeira defesa é continuar o trabalho: apurar, perguntar, publicar. Mesmo quando é mais difícil, especialmente quando é mais difícil”, disse Sulzberger.
Ele lembrou que independência não significa oposição. O New York Times continuará investigando todos os espectros políticos. “Nosso papel é ser cético com todos os governos, não apenas com os que discordamos. A independência é o que dá credibilidade ao jornalismo.”
Por isso, Maher reforçou que o jornalismo é infraestrutura da democracia. “Conhecimento é poder e, hoje, defender o conhecimento é um ato de resistência.”
Reflexão final
O painel do Web Summit Lisboa 2025 deixou evidente que o jornalismo em um mundo polarizado é mais do que uma profissão. É um serviço público essencial.
Em tempos de algoritmos que distorcem e líderes que tentam controlar a narrativa, continuar fazendo perguntas, checando fatos e publicando verdades voltou a ser um ato revolucionário.





