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Web Summit Lisboa 2025 novembro 11, 2025

Internet livre e democrática: o que está em jogo

Kleber Pinto

Escrito por Kleber Pinto

Tempo de leitura 4 min

Internet livre e democrática: o que está em jogo

No Web Summit Lisboa 2025, o debate sobre o futuro da internet ganhou uma dimensão geopolítica. Em um painel conduzido por Steve Clemons (Al Jazeera English), os especialistas Kurtis Lindqvist (presidente e CEO da ICANN) e Sally Wentworth (presidente e CEO da Internet Society) discutiram o tema A geopolítica da internet: unidade ou divisão?

O tom da conversa foi claro: a rede mundial, criada para conectar o planeta, corre o risco de fragmentação. Esse risco ameaça não apenas a tecnologia, mas o próprio conceito de uma internet livre e democrática.

Como a internet pode ser mais democrática

Kurtis Lindqvist abriu o debate com um alerta. “A internet não é imune à fragmentação. Ela pode se dividir de forma não intencional à medida que governos criam barreiras e controles.”

Segundo ele, o sucesso da internet como infraestrutura global fez com que muitos a tratassem como garantida, esquecendo que sua força vem da colaboração aberta e da ausência de fronteiras.

Sally Wentworth reforçou: “A força da internet está no seu modelo descentralizado e na criação de padrões abertos que qualquer pessoa pode usar para inovar.”

Para ela, o risco está na tentativa de governos e corporações de estabelecer pontos únicos de controle, o que enfraquece a segurança e a liberdade da rede.

O ponto central, segundo ambos, é que a internet livre e democrática se mantém quando é construída de baixo para cima, com colaboração entre usuários, desenvolvedores, empresas e instituições, e não de cima para baixo por decisões centralizadas.

Por que isso é importante

O que está em jogo não é apenas a tecnologia, mas o acesso igualitário à informação e à inovação.

Wentworth lembrou que 2,6 bilhões de pessoas ainda estão desconectadas. “Se as redes se fragmentarem por disputas políticas ou regulatórias, aumentaremos o fosso digital e perpetuaremos desigualdades.”

Ela citou o relatório Digital Economy Navigator, que aponta 1,3 bilhão de novos potenciais usuários para serviços digitais e bancários. “Essas pessoas só poderão se beneficiar da economia online se a internet continuar aberta e confiável.”

Lindqvist foi direto: “Cada vez que um governo decide desligar a internet por motivos políticos, está destruindo uma oportunidade global.”

Esses bloqueios intencionais, usados em contextos de protestos ou eleições, prejudicam economias inteiras e corroem a confiança na rede.

IA e a nova infraestrutura digital

O painel também discutiu o papel da inteligência artificial nesse contexto. Wentworth destacou que a IA depende de grandes bases de dados e conectividade global.

“Se a rede se fragmentar, os modelos se tornarão menos diversos, mais enviesados e menos representativos do mundo”, explicou.

Uma internet livre e democrática é condição essencial para o desenvolvimento ético e equilibrado da IA.

Como se informar e agir

Os especialistas foram unânimes: a defesa de uma internet aberta é uma responsabilidade coletiva.

Wentworth convidou o público a conhecer o trabalho da Internet SocietyAttachment.tiff, que possui capítulos locais em diversos países e promove debates sobre regulação, privacidade e liberdade online.

Lindqvist reforçou a importância de fóruns como o Internet Governance Forum (IGF), onde governos, empresas e sociedade civil constroem normas globais de governança digital. “Engajem-se. Conversem com seus governos. Defendam a neutralidade e a interoperabilidade da rede”, disse.

A mensagem final foi otimista. A internet continua sendo o maior espaço coletivo criado pela humanidade, e sua preservação depende da nossa capacidade de cooperar, não de competir.

Reflexão final

Em tempos de polarização e vigilância digital, discutir governança da internet é falar sobre democracia, liberdade e futuro.

Sally Wentworth resumiu o espírito do painel: “A internet é um reflexo do mundo real. Se queremos uma rede aberta, justa e segura, precisamos construir sociedades abertas, justas e seguras.”

Para os profissionais de comunicação e jornalismo, o recado é claro: entender a política da internet é entender a política da informação. Defender o livre fluxo de ideias é, hoje, um ato de resistência digital.