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Web Summit Lisboa 2025 novembro 12, 2025

O que muda para as redações com a IA generativa?

Kleber Pinto

Escrito por Kleber Pinto

Tempo de leitura 4 min

O que muda para as redações com a IA generativa?

No Web Summit Lisboa 2025, Almar Latour, CEO da Dow Jones e publisher do The Wall Street Journal, trouxe uma visão pragmática sobre o impacto da inteligência artificial nas redações e no futuro do jornalismo.

Segundo Latour, a IA já está integrada às rotinas de produção — do teste de manchetes ao fluxo de histórias — mas o verdadeiro desafio é não terceirizar o juízo editorial. “Muitas vezes a mídia errou ao subavaliar o próprio conteúdo. Agora, precisamos enfatizar e defender esse valor”, afirmou.

A tradução prática é direta: texto, dados e acervos são ativos estratégicos e monetizáveis, não apenas insumos para tráfego.


IA, licenciamento e o novo jogo com as Big Techs

Latour descreveu a estratégia da Dow Jones como “deal ou litígio”: priorizar acordos comerciais que remunerem o uso de conteúdo, mas recorrer à Justiça quando necessário.

“Preferimos parcerias comerciais, para que nosso conteúdo circule com valor justo. Quando não há, partimos para o litígio”, explicou.

Ele citou o acordo com a OpenAI e a ação judicial contra a Perplexity como exemplos de defesa do valor intelectual. O recado foi claro: publishers precisam se unir e negociar como bloco.


Como transformar conteúdo em receita na era da IA

A Dow Jones opera um marketplace de dados e editoriais que representa “direitos de IA” de cerca de 7.500 publishers e distribui royalties quando o conteúdo é usado por clientes corporativos.

“Recebemos a ligação de um editor achando que havia erro — era o primeiro pagamento por uso de IA que ele recebia”, contou Latour.

O modelo se apoia em quatro pilares:

  • Catalogar acervos com metadados ricos.

  • Definir escopos de licença (treino, inferência, snippets, derivativos).

  • Agrupar-se em consórcios para aumentar o poder de negociação.

  • Auditar o uso de conteúdo com fingerprinting e watermarking.


Liberdade de imprensa e sustentabilidade

Latour também alertou para a deterioração da liberdade de imprensa.

Mais jornalistas estão presos e menos redações locais permanecem ativas — “cerca de 40% a menos em 10 anos, nos EUA”, disse.

Sem sustentabilidade econômica, não há independência editorial.

“Temos responsabilidade cívica e empresarial de reinventar modelos que sustentem a reportagem”, completou.


O modelo de negócio que está funcionando

A Dow Jones hoje combina mídia, dados, analytics e comunidades profissionais em um modelo B2P (business-to-professional):

  • Notícia premium: WSJ, Barron’s, MarketWatch.

  • Dados proprietários: energia, risco e patrimônio.

  • Analytics: previsões e benchmarks.

  • Eventos e comunidades: hubs de liderança e inovação.

“O Wall Street Journal é uma ferramenta de trabalho. Servimos a tomada de decisão”, afirmou.

Para redações menores, o princípio é o mesmo: escolha um nicho, colete dados exclusivos e crie produtos analíticos e comunidades pagas.


Como uma redação pode se preparar agora

1. Faça um inventário de ativos.

Arquivos, fotos, dados e direitos devem estar catalogados.

2. Estabeleça política de IA.

Defina onde a IA atua (rótulos, resumos) e onde não entra (checagem, títulos sensíveis).

3. Licencie e audite.

Participe de marketplaces e implemente KPIs de royalties.

4. Verticalize.

Especialize-se em temas indispensáveis a públicos profissionais.

5. Eduque sua base.

Explique o uso da IA e o valor do conteúdo. Confiança é ativo.


Conclusão: dados são o novo pilar do jornalismo

Na era da IA, conteúdo sem estratégia de dados é commodity.

Para Almar Latour, o futuro das redações está em tratá-las como plataformas de decisão: notícia premium, dados proprietários, análises e comunidade.

O recado final é simples e direto:

catalogue, licencie, audite, verticalize e eduque sua audiência.

O resto é execução.