Web Summit Lisboa 2025 novembro 11, 2025
O futuro do jornalismo na era da inteligência artificial

No Web Summit Lisboa 2025, três nomes de peso do jornalismo internacional subiram ao palco para discutir o futuro da mídia diante da disrupção digital: Louis Dreyfus, CEO do Le Monde (França), Maer Roshan, editor-chefe do The Hollywood Reporter (EUA), e Jasmine Taylor Coleman, editora assistente de newsletters da BBC News (Reino Unido).
O painel Reinventing Media Across the Water reuniu experiências europeias e americanas para responder a uma questão essencial: como o jornalismo na era da inteligência artificial pode se reinventar diante das mudanças de hábito e da economia da atenção.
O papel do jornalismo na era da IA
Louis Dreyfus foi direto. “Há alguns anos, a pergunta era se o Le Monde sobreviveria ao digital. Hoje temos mais de 600 mil assinantes pagos. O investimento em jornalismo de qualidade ainda é o que sustenta a credibilidade.”
O executivo destacou que o segredo da transformação do Le Monde não foi abandonar o impresso, mas redefinir o valor do conteúdo em todas as plataformas, da newsletter ao aplicativo.
Maer Roshan, do The Hollywood Reporter, trouxe a visão de uma indústria em constante crise — greves de roteiristas, pandemia, incêndios e fragmentação total da audiência. “O desafio é falar com leitores sobre o que realmente importa, em um mundo em que todos produzem conteúdo e disputam segundos de atenção.”
Para ele, a inteligência artificial não é uma ameaça, mas uma ferramenta de apoio. “Eu peço para o ChatGPT gerar títulos. Eles nunca são muito bons, mas servem como ponto de partida. A IA acelera processos, mas não substitui o olhar humano.”
Por que isso é importante
A discussão mostra um ponto crítico para quem trabalha com comunicação: a tecnologia não é mais um diferencial, é o ambiente.
Tanto o Le Monde quanto o Hollywood Reporter entenderam que, na era da IA, o valor da marca está em ser uma referência confiável, não apenas em gerar tráfego.
Dreyfus foi enfático ao afirmar que o modelo de publicidade digital baseado em grandes plataformas está esgotado. “O tráfego gratuito vai cair a quase zero. Precisamos construir parcerias com as plataformas de IA e converter audiência em comunidade.”
Ele revelou que o Le Monde já negocia acordos para ser fonte reconhecida em respostas geradas por IA, criando novas frentes de receita e visibilidade editorial. Esse movimento segue a linha de organizações como a Associated Press e o Financial Times, que buscam garantir presença e crédito nos ecossistemas de IA generativa.
O que aprendemos com isso
Os três jornalistas concordaram em um ponto: a reinvenção da mídia exige curiosidade permanente e coragem institucional.
“Quem entra neste setor precisa ser curioso por natureza”, disse Roshan. “Não se trata apenas de reagir ao novo, mas de sair para o mundo e ver o que está acontecendo.”
Para Dreyfus, o papel das lideranças é manter a redação em movimento. “Precisamos estar abertos a novas linguagens, novas tecnologias e, sobretudo, a novas gerações de leitores. A marca que não se adapta ao público jovem morre com o público antigo.”
A BBC, representada por Jasmine Taylor Coleman, aposta em newsletters e conteúdos personalizados — um campo onde a IA e o jornalismo de serviço se cruzam. “O leitor não quer só saber o que aconteceu. Quer entender o que aquilo significa para ele. E é aí que a tecnologia pode ajudar a personalizar a experiência sem perder o rigor.”
Reflexão final
O painel Reinventing Media Across the Water deixou uma lição clara. O futuro do jornalismo na era da inteligência artificial não será definido pela tecnologia, mas pela forma como ela é usada para ampliar a relevância editorial.
Em vez de competir com algoritmos, o caminho é fazer o que a máquina ainda não consegue: dar contexto, investigar e emocionar.
Como lembrou Maer Roshan, “as pessoas ainda voltam para o jornalismo por aquilo que nenhuma tecnologia pode gerar: confiança.”





