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Web Summit Lisboa 2025 novembro 12, 2025

Interoperabilidade e direito de consertar: o futuro da internet

Kleber Pinto

Escrito por Kleber Pinto

Tempo de leitura 4 min

Interoperabilidade e direito de consertar: o futuro da internet

No Web Summit Lisboa 2025, o escritor e ativista Cory Doctorow e o tecnólogo Rabble defenderam uma visão ousada: reconstruir a internet a partir da interoperabilidade, do direito de consertar e da descentralização.

Para Doctorow, o declínio das plataformas é resultado direto de políticas que retiraram dos tecnólogos o direito de corrigir e melhorar sistemas criados por terceiros. “A decadência das plataformas nasceu de políticas que tiraram dos tecnólogos o direito de consertar o que outros quebraram”, afirmou.

Ele apontou leis de anti-circunvenção (DRM) e acordos comerciais exportados pelos EUA como os principais responsáveis por criminalizar a engenharia reversa, os mods e o bloqueio de rastreamento — práticas que, no início da web, permitiam aos usuários criar soluções melhores e proteger sua privacidade.

“App é o site no qual é ilegal proteger a sua privacidade. Quanto mais te empurram para apps, mais anúncios e dados te arrancam”, provocou Doctorow.

Caminhos para uma rede mais aberta

Doctorow propôs medidas práticas para “re-democratizar” a rede e reduzir a dependência de grandes plataformas:

  • Interoperabilidade adversarial por padrão: tornar legal criar conectores e wrappers que permitam migrar entre serviços.

  • Direito de reparar (físico e digital): liberar engenharia reversa em tratores, impressoras e smartphones para quebrar monopólios de manutenção.

  • Padrões abertos e portabilidade real: políticas públicas que exijam APIs abertas e transferência de dados sem fricção.

  • Compras públicas como alavanca: governos priorizando softwares abertos para reduzir dependências e fortalecer ecossistemas locais.

Por que isso importa

Doctorow cunhou o termo “enshittification” para descrever o ciclo de degradação das plataformas: primeiro agradam usuários, depois anunciantes e, por fim, exploram ambos em favor dos acionistas.

Esse processo leva à concentração de poder, aumento de custos e limitação da inovação. “Seu lucro é a minha oportunidade — vale para desafiar os monopólios também”, ironizou, referindo-se à lógica original da Amazon.

Ele também alertou para os riscos de dependência estrutural: quando infraestruturas críticas (como comunicação, agricultura e justiça) dependem de provedores privados, a democracia se torna vulnerável.

O que fazer agora

O painel terminou com um guia prático para comunicadores, jornalistas e formuladores de políticas:

  1. Planeje para a portabilidade. Exija exportação granular, webhooks e APIs antes de contratar plataformas.

  2. Adote padrões abertos. Use SMTP/IMAP, RSS, Mastodon, Matrix e criptografia ponta a ponta.

  3. Crie saídas de emergência técnicas e jurídicas. Tenha cláusulas de migração e planos de contingência.

  4. Invista em interoperabilidade editorial. Estruture metadados e schemas para circular entre CMSs e buscadores.

  5. Use IA com independência. Prefira modelos abertos e evite amarrar processos críticos a APIs exclusivas.

  6. Apoie o direito de consertar. Audite algoritmos, exponha vieses e publique métodos de análise.

Reflexões de Cory Doctorow

  • “A internet se tornou frágil onde a lei proibiu consertá-la.”

  • “Ninguém instalou um ‘app-blocker’ porque é ilegal fazê-lo.”

  • “Se queremos escolher outro algoritmo, a lei não pode impedir.”

  • “Planeje agora o que fará quando GPUs custarem dez centavos por dólar após a bolha.”

Conclusão

Resistir à “enshittification” é um protocolo de futuro.

Democratizar a internet não é nostalgia — é uma estratégia de resiliência. Interoperabilidade, direito de consertar e padrões abertos são pilares de soberania informacional, inovação e interesse público.

No fim, o recado de Doctorow ecoou no evento: a vantagem competitiva do futuro não estará em prender usuários, mas em libertá-los para que escolham você de novo amanhã.