AI Brasil Experience 2025 novembro 17, 2025
Entre a razão e o desejo: o olhar filosófico sobre a IA no AI Brasil Experience
No AI Brasil Experience 2025, realizado no Distrito Anhembi, em São Paulo, o filósofo e escritor Luiz Felipe Pondé participou de um painel que fugiu do tom técnico das outras apresentações e levou o público a refletir sobre o lado humano da tecnologia. Ao lado de outros pensadores, o debate abordou os limites éticos e afetivos da inteligência artificial e as implicações do convívio entre humanos e máquinas em um mundo cada vez mais automatizado.
Pondé abriu sua fala dizendo que, para compreender as possibilidades da IA, é preciso primeiro reconhecer o que ela realmente é. A inteligência artificial não sente, não compreende e não pensa, mas foi desenhada para dar a impressão de que faz tudo isso. O encanto vem justamente dessa ilusão. “Quando algo não humano finge ser humano, desperta em nós um fascínio e também um desconforto”, observou. Segundo ele, há uma dimensão de encantamento e perigo em lidar com sistemas que simulam empatia sem ter consciência, porque eles tocam em algo profundamente humano: a necessidade de reconhecimento.
O filósofo relatou que estudos recentes apontam os usos mais populares da IA fora do ambiente corporativo. O primeiro é o papel de “terapeuta digital”, quando usuários recorrem a aplicativos de IA para desabafar, refletir ou buscar conselhos emocionais. O segundo é o uso como companheiro virtual, em aplicativos de namoro e interação afetiva. “As pessoas sabem que não estão falando com um ser humano, mas mesmo assim se apegam. Elas projetam sentimentos e constroem vínculos”, comentou.
A discussão avançou para a dimensão simbólica desse fenômeno. Pondé lembrou que a linguagem é o que nos humaniza, e é justamente por meio dela que a IA se aproxima de nós. Ela não pensa, mas fala, e é na fala que o humano se apaixona. “A voz, o tom, a cadência, o modo de dizer… tudo isso nos toca. Há quem se apaixone por uma voz, e não por uma pessoa”, refletiu.
Ao discutir o fascínio pelos discursos bem estruturados que a IA produz, Pondé questionou se esse encantamento não revela algo sobre a própria sociedade. “Talvez o problema não seja a máquina, mas o quanto nós, humanos, estamos viciados na retórica e na aparência de profundidade”, provocou. O público reagiu com risos e murmúrios de concordância, diante da ironia contida na frase.
O debate também abordou o tema da ética. Pondé afirmou que não existe “IA ética” em si, porque sistemas não são morais. O que existe é o uso ético que os humanos fazem dessas ferramentas. Ele destacou o desafio de estabelecer limites universais em um mundo com culturas, valores e interesses tão diversos. “A inteligência artificial é desenvolvida à luz dos humanos. Mas quais humanos? De que sociedade, de que contexto, de que visão de mundo?”, perguntou.
Ao lado de Pondé, outros debatedores ressaltaram que regular o uso emocional e íntimo da IA será praticamente impossível, pois as relações entre humanos e máquinas também são movidas pela paixão. “O ser humano luta por sua servidão como se lutasse por sua liberdade”, lembrou Pondé, citando Spinoza para reforçar a ideia de que o desejo é a força que guia nossas ações, inclusive no uso da tecnologia.
O painel terminou em tom reflexivo. Para o filósofo, o que a inteligência artificial revela não é apenas uma nova era tecnológica, mas um espelho da condição humana. “A IA não tem sentimentos, mas nós projetamos os nossos nela. No fim, estamos aprendendo menos sobre as máquinas e mais sobre nós mesmos”, concluiu.
Na visão da Midiaria.com, o painel foi um dos momentos mais instigantes do AI Brasil Experience. Ao aproximar filosofia e tecnologia, Luiz Felipe Pondé e os demais participantes lembraram que toda inovação é, antes de tudo, uma questão de humanidade. Pensar sobre o que a IA é — e o que ela não é — é também pensar sobre quem somos e o que queremos preservar em meio à revolução digital.
